terça-feira, 11 de junho de 2013

As cotas na UEPG precisam continuar... afinal é Lei!

Toda pupila é branca

                                              09 de Junho de 2013
por Jocemara Marcondes Gomes
 - odontologus@hotmail.com

Em 2013, a Lei da Abolição completou 125 anos e resumida em um único parágrafo, dizia estar extinta a escravidão no Brasil. Assim, a Coroa e a Igreja com sua “missão evangelizadora” deixavam de lucrar com o comércio e mão de obra de escravos. O negro era considerado um ser inferior, uma coisa, não uma pessoa, e por isso não tinha nenhum direito. Mais de cem anos depois, discutimos o passado escravista legalizado, base do nosso sistema social e econômico e tentamos desconstruir sequelas como o racismo, a cultura da violência, a má distribuição de renda, o desrespeito à cidadania e o acesso ao ensino superior.

O Senado buscando a devida reparação aprovou o projeto que regulamenta o sistema de cotas nas universidades e prevê que até 2016 25% do total de vagas sejam destinadas a estudantes negros. Negro, pobre, deficiente ou indígena? A maioria das universidades exige que o candidato responda no ato da inscrição se vai concorrer pelo sistema universal (sem cotas) ou pelo sistema de cotas – raciais ou sociais. As vagas pelas cotas raciais são destinadas aos candidatos negros e pardos que tiverem melhor pontuação ou ainda bonificação na nota final das provas sem guardar lugares nos cursos de graduação.

As cotas sociais reservam vagas para candidatos oriundos de escola pública, população de baixa renda, deficientes, indígenas e até para filhos de policiais civis e militares, bombeiros militares e inspetores de segurança e administração penitenciária, mortos ou incapacitados em razão do serviço. A intenção é incluir no ensino superior candidatos que são prejudicados no processo seletivo por terem tido menos oportunidades de aprimorar o estudo.

Adotando as cotas desde 2006, a UEPG deverá avaliar esta benesse - a inserção de indivíduos da escola pública em condição de desempenho de qualidade nos cursos, bem como a cota para negros e sua efetiva contribuição como política de inclusão social. Há bons fundamentos dos dois lados: os que querem as cotas para negros, e os que a rejeitam, todos com bons argumentos. O sociólogo Muniz Sodré questiona - Não é a proximidade entre as diferenças o que, afinal, promove o sistema de cotas brasileiro?

Martin Luther King desejou direitos civis sem distinção e que as crianças não fossem julgadas pela cor de sua pele. Por ideologia, atestaria contra um pré-vestibular “para negros” e a favor para os pobres ou oriundos de escola pública. Mas é necessário outro olhar e descobrir que ser pobre é um problema, ser pobre e negro é um problema maior ainda. De onde eles vêm, as cotas fazem todo sentido. Os cotistas já mostraram que sua média de notas é maior e menor a média de faltas entre os que não precisaram de cotas.

O pano de fundo sempre é o combate à discriminação racial. Não é exigindo atos heroicos de cada jovem pobre e negro que a igualdade nos alcançará. A espera já se alongou por séculos e somente enfrentando o problema no ensino fundamental, médio, cotas, universidade, distribuição de renda e tributação justa, alavancaremos as políticas afirmativas da sociedade – eis a nova alforria.

Extraído de JMNews - Jornal da Manhã - Ponta Grossa - PR

2,6 mil ingressam na UFMT pelo sistema de cotas

2,6 mil ingressam na UFMT pelo sistema de cotas

10 junho 2013 10:41

Nos últimos dois anos, 2.600 estudantes de escolas ingressaram na Universidade Federal de Mato Grosso(UFMT) pelo sistema de cota, ou seja, reserva de 50% das vagas.

Na tentativa de fazer com que esses universitários prossigam nos estudos até a conclusão dos cursos, o governo Federal, por meios das faculdades, oferecem bolsas permanência e outros mecanismos de apoio.

Em Mato Grosso, conforme dados Pró-reitoria de Assistência Estudantil da UFMT, são 1.500 bolsas permanência no valor de R$ 400,00, 1.500 auxílios permanência (R$100,00) e 110 auxílios moradia de R$ 400.

Além disso, explica a pró-reitora, professora Myrian Serra, são disponibilizadas 125 vagas de moradia estudantil nos campus de Cuiabá Rondonópolis, 100 e 25, respectivamente.

Além dos programas de permanência socioeconômica, a UFMT disponibiliza programas de apoio acadêmico, como tutoria, apoio inclusão e monitoria.

Cerca de 1.500 bolsistas, estudantes de graduação atuam no apoio acadêmico aos demais estudantes da universidade.

Tanto bolsas, auxílios e moradia são para estudantes carentes cotistas e que já frequentavam a faculdade antes da regulamentação federal das cotas, o que ocorreu ano passado.

O Enem é a única forma de ingresso na Universidade Federal de Mato Grosso, a mais concorrida do Estado. (AA)


Programas aumentam número de índios em universidades de SC

Programas aumentam número de índios em universidades de SC

10/06/2013 22h15 - Atualizado em 11/06/2013 15h14
Géssica Valentini Do G1 SC

Na UFSC, sistema prevê atualmente 10 vagas, que serão ampliadas.
Em instituições particulares, bolsas e financiamentos são alternativas.


O programa de Ações Afirmativas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) prevê cotas para índios desde 2008. Até o ano passado, nove vagas eram disponibilizadas, com um limite de duas vagas por curso. Uma reformulação ampliou o número de vagas, desde que haja candidatos aprovados. Conforme a UFSC, o total será ampliado gradativamente, enquanto o limite por curso subiu para 3 vagas. São 10 vagas em 2013, 13 em 2014, 16 em 2015, 19 em 2016 e 22 em 2017.

De acordo com o presidente da Comissão de Acompanhamento das Ações Afirmativas da UFSC, Marcelo Tragtenberg, a alteração ocorreu porque nos últimos anos houve um aumento gradativo no número de indígenas prestando vestibular. Ele comemorou as novas regras e a continuidade do Programa.

"A nova lei estabelece, no âmbito da UFSC, que cada curso deve reservar uma vaga para autodeclarados indígenas de escola pública. O Estatuto do Índio estabelece que os índios são aqueles que são reconhecidos pelo seu povo e se reconhecem como daquele povo. Esse critério pode ser utilizado para evitar fraudes, mas somente após a matrícula, via processo administrativo. Estamos iniciando esse processo de integração", explica Tragtenberg.

Um estudo do Núcleo de Estudos dos Povos Indígenas da UFSC, sobre os alunos indígenas que ingressam na instituição com as vagas suplementares, mostra que entre 2008 e 2011 foram nove classificados, sendo que apenas quatro ainda estavam matriculados no ano passado, entre eles a estudante de medicina Fernanda Peretti Corrêa, que ingressou em 2010, e a aluna de direito Lucimara Patté, que iniciou a graduação em 2012.

Fernanda foi a primeira estudante a ingressar no curso de medicina da UFSC através das cotas. Para permanecer na universidade, ela conta que recebe uma bolsa permanência, no valor de R$ 490, além de uma bolsa da Fundação Nacional do Índio (Funai), de R$ 300, e um auxílio moradia de R$ 200. Mãe de dois filhos, de 11 e 3 anos, ela diz que, apesar de importante, ainda precisa da ajuda dos pais e da avó paterna das crianças. “Se não tivesse esse auxílio, não conseguiria estudar”, afirma ela.

Como Fernanda, outros estudantes também apontam o valor da bolsa como baixo e até mesmo motivo desistência, como mostra o estudo do Núcleo de Estudos dos Povos Indígenas. Além disso, o trabalho mostra que a divulgação do vestibular não chega às aldeias, há uma burocracia para se conseguir a isenção da taxa e a própria entrevista. Ainda assim, estudantes como Fernanda e Lucimara continuam no curso e comemoram a oportunidade.

Estudantes indígenas matriculados no país
Educação infantil                                    22 mil
Ensino fundamenta                              175 mil
Ensino médio                                         27 mil
Educação de Jovens e Adultos             22 mil
Ensino superior                                       9 mil
Fonte: Censo Escolar 2010/MEC


Indígenas em instituições particulares

Segundo o Censo Escolar de 2010, do Ministério da Educação, em todo o país há pelo menos 9 mil índios em cursos superiores. Na UFSC, além dos cotistas, há o curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, específico para descendentes das etnias kaingags, xoklengs e guaranis, que ingressaram através de um processo seletivo diferenciado. Conforme a professora Maria Dorothea Post Darella, 120 alunos iniciaram a graduação, em 2011, e 95 continuam matriculados.

Conforme a agente indigenista Luciana Porta, da Fundação Nacional do Índio (Funai), a entidade não possui um registro do número de índios em outras universidades do estado, mas garante que o número ultrapassa dezenas e a maioria está matriculada em instituições particulares. Apesar disso, apenas alunos de universidades públicas recebem uma bolsa da Funai, no valor de R$ 300. Ainda conforme Luciana, até mesmo este auxílio no próximo semestre será repassado pelo Ministério da Educação (MEC).

"A Funai costumava destinar uma ajuda a todos, mas nos últimos anos o número de estudantes cresceu muito, até que não foi possível mais. Somente neste semestre, temos 16 pedidos de auxílio de estudantes na região de Ibirama, mas há dezenas de estudantes somente nesta região", disse ela.

Nesse caso, conforme Luciana, os alunos dependem das oportunidades de cada universidade, como bolsas do governo federal, estadual ou da própria instituição, além de financiamentos estudantis, que também considera responsáveis pelo aumento no número de indígenas em cursos superiores.

Seja em universidades públicas ou particulares, apesar da dificuldade em concluir o curso, a agente indigenista comemora a existência dos programas e o interesse pela educação superior. "Além de melhorar a autoestima, há uma integração deles na universidade. É muito importante ocuparem esse espaço universitário, que é universal, para conquistarem reconhecimento como cidadãos. Acredito que essas oportunidades são necessárias para isso”, conclui ela.

Extraído de G1

Mudem-se as cotas da UEPG

Mudem-se as cotas da UEPG


por Angelo Luiz De Col Defino
angelo.defino@bol.com.br

                                            11 de Junho de 2013


O Supremo Tribunal Federal já se pronunciou sobre as cotas raciais em universidades públicas, considerando-as constitucionais. O Senado Federal aprovou lei que obriga as universidades federais a reservarem 50% das vagas para alunos que tenham cursado todo o ensino médio (antigo “segundo grau”) em escolas públicas.

Em Ponta Grossa, após sete anos do surgimento das cotas dentro da UEPG, uma discussão importante sobre elas foi deflagrada na última semana.

O debate é importante para reflexão sobre a permanência ou não das atuais regras que regem os concursos na nossa Universidade. E acontece em um período de discussão nacional sobre o tema, com grandes polêmicas. Estudos da Universidade Federal Fluminense, publicados no jornal Folha de São Paulo do último 28 de abril, dão conta que, diferentemente de 2005, quando os recém beneficiados cotistas apresentavam médias de notas durante o curso universitário equivalentes aos demais candidatos selecionados pelo método tradicional, agora aparece uma média de 10% a menos de pontos em suas notas durante os cursos pesquisados.

É óbvio que antes de ser favorável a qualquer tipo de cota somos favoráveis a uma escola de qualidade que coloque o aluno do ensino público em pé de igualdade para disputar uma vaga com qualquer aluno vindo do ensino particular.

As cotas chegaram com este estigma de paliativo. O problema é que se passou quase uma década e o ensino público não evoluiu como deveria. E as cotas não só se perpetuam como avançam sobre as demais vagas.

Sou a favor da cota para alunos de escolas públicas como está no projeto do Senado. Apenas para aqueles que comprovem que realmente não podem pagar pelo ensino particular. Como já é feito na Universidade Estadual de Maringá. Pois é interessante, que a cada divulgação dos resultados dos vestibulares da UEPG vemos os nomes de alguns cotistas de escolas públicas dos cursos mais concorridos sendo divulgados como alunos de Cursinhos Pré vestibulares, ou seja, estavam frequentando paralelamente o ensino particular. Mas não era para privilegiar os menos favorecidos?

Trabalhei de 2002 a 2009 em uma mesma Unidade de Saúde de Ponta Grossa. Vi toda uma população melhorar de vida nos últimos anos. E uma das primeiras atitudes das mães, quando começou a sobrar salário no final do mês, era colocar seus filhos em uma escola particular ou pedir uma bolsa nessas escolas, pensando que seria melhor para eles poderem entrar na Universidade. E pagavam com sacrifício. O que dizer para elas quando chega o vestibular e seu filho teria uma concorrência menor se elas não tivessem se sacrificado tanto?

Extraído de JMNews - Jornal da Manhã - Ponta Grossa - PR


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Cotistas da UnB provam mérito e põem abaixo mitos de críticos

Cotistas da UnB provam mérito e põem abaixo mitos de críticos

9 de Junho de 2013 - 15h56

"A função das cotas raciais é deixar de existir assim que a discriminação reduzir ou acabar. O papel da sociedade é trabalhar para que isso aconteça o mais rápido possível", afirma Natália Machado, antropóloga, aluna cotista.

Por Ana Pompeu*, no Correio Braziliense

Não fossem as cotas raciais, a Universidade de Brasília (UnB) teria 71,5% menos negros no quadro de estudantes na última década. Quem esteve no seminário “10 Anos de Cotas na UnB: memória e reflexão” considera o número representativo. Para eles, é a prova de que a política afirmativa da instituição deu certo e vem incluindo uma parcela discriminada e excluída do ensino superior.


Além disso, os bons resultados apresentados pelos cotistas põem abaixo alguns mitos levantados pelos críticos da ação. Entre eles, havia questionamentos sobre a queda do nível da universidade com o ingresso de estudantes por meio de cotas. O tempo provou, no entanto, que o desempenho deles, comparado ao do sistema universal, não teve diferença significativa. Em 2009, chegou a ser superior. A média do índice de rendimento acadêmico (IRA) ficou em 3,1 para os cotistas, enquanto os demais estudantes alcançaram 2,9.

A partir deste mês, a instituição aprofunda o trabalho de avaliação dos resultados para decidir sobre a continuidade do sistema. Em 6 de junho de 2003, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) aprovou a reserva de vagas na UnB.

O plano estipulou 10 anos para a duração da política. Como a primeira turma com alunos cotistas ingressou no segundo semestre de 2004, o prazo vence no fim do primeiro semestre do próximo ano. Portanto, chegou a hora de a universidade pensar sobre a manutenção da reserva de vagas. Uma comissão nomeada pelo reitor deve começar a se reunir para estudar propostas sobre o tema. Possíveis mudanças vão vigorar a partir do segundo processo seletivo de 2014.

*Ana Pompeu é jornalista do jornal diário de Brasília, Correio Braziliense

Extraído de Vermelho


sábado, 16 de março de 2013

SP - ALESP audiência sobre cotas raciais

Movimentos sociais protagonizam audiência sobre cotas raciais

Pelo menos 400 pessoas estiveram reunidas na audiência pública que sacudiu a Assembleia Legislativa de São Paulo, no final da tarde de quarta-feira (13), que seguiu noite adentro. Na pauta, as cotas raciais nas universidades públicas paulistas. Estudantes, negros e brancos, além dos movimentos pró-cotas, foram os grandes protagonistas do debate, levando o recado aos deputados: “queremos debater e construir uma política inclusiva de cotas.”


Por Deborah Moreira - Da Redação do Vermelho
14 de Março de 2013 - 16h12

Os movimentos negro e estudantil deixaram claro que não passará desapercebido o Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista (Pimesp), proposto de forma unilateral pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), impondo barreiras para a implementação da lei de cotas raciais nas universidades do estado. Além de debater, os movimentos querem dar sua contribuição para a democratização da universidade.

Inicialmente marcado para acontecer no auditório Franco Montoro, o debate foi transferido a pedido da deputada estadual Leci Brandão (PCdoB), presidenta da Comissão de Educação e Cultura, que realizou a audiência em conjunto com a bancada do PT. A presidenta da sessão solicitou um plenário maior devido a grande quantidade de presentes, o que acabou atrasando em meia hora o evento. Mesmo após quatro horas, a maioria permaneceu até o final, após as diversas intervenções de representantes do Conselho de Reitores das

A deputada comunista Leci Brandão até tentou conter os ânimos, mas a todo instante os estudantes faziam intervenções, entoavam palavras de ordem, levantavam cartazes, imprimindo na audiência a rebeldia necessária e na medida em que, ao final, foi saudada e reconhecida por Leci.

Em um desses momentos protagonizados pelos universitários presentes, eles cantaram o verso bastante simbólico do poeta baiano, José Limeira, em Negro homem, negra poesia, quando foi apontado na plateia o professor e cientista social da Universidade de São Paulo (USP), Kabengele Munanga: “Por menos que conte a história. Não te esqueço meu povo. Se Palmares não vive mais. Faremos Palmares de novo”.

O presidente da União de Negros pela Igualdade (Unegro), Edson França, presente na audiência, ressaltou ao Vermelho o significado da audiência pública: "Para nós a audiência é bastante relevante para primeiro mobilizar a Casa, os parlamentares para esse debate da cota. A Casa está muito distante disso. O governo Alckmin apresentou uma proposta, para o colegiado, mas como aqui é o espaço de representação do povo paulista, os deputados estaduais precisam entrar nesse debate. A gente tem percebido que em outros estados os parlamentos estaduais foram sujeitos bastante ativos no debate das cotas [raciais], assim foi quando ocorreu a discussão em nível federal, e assim precisa ser aqui em São Paulo. Temos um mandato bastante conservador no estado de São Paulo e a Casa está conservadora, a maioria da base do governo tem silenciado pontos importantes para os paulistas".

Edson e outras lideranças dos movimentos presentes defenderam o aproveitamento dos projetos de lei que já foram aprovados, discutidos e que traduzem a luta pela implementação das cotas raciais existente há mais de 10 anos.

“Viemos denunciar o caráter retrógrado, conservador e discriminatório dessa proposta do governo Alckmin e que desconsidera os 10 anos de cotas no Brasil. Não estamos iniciando uma discussão. O Brasil já tem uma discussão acumulada, tem resultados, tem avaliações apresentadas para o público e não se pode ignorar esse conhecimento coletivo do país. Não queremos categorias diferenciadas de cotistas. Queremos para São Paulo os mesmos direitos que os estudantes de outros estados têm”, destacou ele.

Por fim, Edson França também observou que a presença maciça de estudantes e militantes no plenário representa a força e o protagonismo que os movimentos têm nessa pauta: “É importante unificar de maneira coletiva uma proposta. Não só não queremos o Pimesp porque é uma proposta segregacionista, como queremos um modelo que já tenha sido proposto aqui na Casa, como o PL 530, assinado por 28 deputados, que atende o interesse da população pobre e negra do estado, que tem lutado pelas cotas”, completou o presidente da Unegro, em plenário.

Outros dois importantes representantes do movimento negro que estavam presentes, também  foram convidados a falar na audiência, em nome do movimento negro e entidades integrantes da Frente Pró-Cotas do Estado de São Paulo. Douglas Belchior, da Uneafro e o professor Silvio Almeida, do Instituto Luiz Gama.

“Depois da medida truculenta do governo de tentar impor um programa e apresentá-lo à sociedade em dezembro, sem dialogar com a sociedade, os movimentos se organizaram e reagiram com um grande manifesto bastante representativo. Nós estamos vencendo esse debate, a cada dia novos professores, setores da sociedade se colocam contra esse programa, esse projeto autoritário do Alckmin e do PSDB, bem como das reitorias. Hoje temos a oportunidade de iniciar um debate olho no olho, cara a cara com os reitores”, desabafou Douglas Belchior em entrevista ao Vermelho, pouco antes de subir ao plenário. “É um debate positivo, propositivo. Saímos daqui maiores do que quando chegamos”, concluiu.

De acordo com os representantes das organizações presentes, as mesmas não foram consultadas, nem mesmo a comunidade acadêmica das universidades paulistas estaduais, o que teria “atropelado os processos internos nas universidades de debate e diálogo”.

Qual o mérito do Pimesp?

Silvio Arruda esmiuçou, em sua fala durante a audiência, que o Pimesp traz três tipos de problemas: de ordem política, tendo em vista que está sendo imposto e não debatido, construído coletivamente; de ordem técnica, já que a construção do projeto em si, pouco se sabe sobre como foi feita e por quem foi construído, quais especialistas assinam o projeto; o terceiro, de ordem jurídica, que impede o acolhimento desse programa como um programa universal a ser implementado na universidade.

“Se o programa é de inclusão por mérito, qual o mérito das pessoas que construíram esse projeto? Não estou dizendo que não tenha, mas eu quero saber, quero ser informado para que eu possa discuti-lo com essas pessoas, já que o critério é de meritocracia para ocupar o espaço de poder”, exclamou Silvio Almeida sendo bastante aplaudido.

College

Silvio Almeida fez questão de explicar o que é o college, uma espécie de sala de espera para estudantes de baixa renda e negros.

“Por fim, sobre as questões de ordem jurídica, esse projeto cria um grupo chamado college, onde estariam os alunos por um ano ou dois anos, em uma etapa intermediária para poderem ingressar na universidade, fazendo um curso técnico. Agora, eu não sei quem foi que concebeu essa ideia do college, será que é eficiente? Não há dados sobre isso. Mas parece uma proposta segregacionista, porque é uma proposta da Univesp, de ensino à distância, e, portanto, será negado a esses alunos a convivência universitária. E quem olhar a grade curricular desse curso verá coisas do tipo ‘empreendedorismo’, ‘liderança’, ‘organização do trabalho’. Agora, quem conseguir chegar ao final de dois anos do curso, vai se formar no quê? Em organização do tempo? Ou liderança, empreendedorismo? Vai trabalhar aonde?”, indignou-se Silvio, que também é professor de direito e metodologia científica.

“Há dados distorcidos sem citação de fontes. Falando como professor, se um aluno meu apresenta um projeto com dados sem comprovação eu reprovo”, concluiu o representante do movimento negro sob muitas palmas.

“É necessário a nova abolição, pra trazer de volta a minha liberdade”

Por volta das 20h30, depois de muitos representantes dos movimentos e das reitorias falarem, a deputada Leci Brandão quebrou o protocolo, deixando temporariamente a presidência da mesa – entregando-a ao deputado Adriano Diogo (PT) – para dar seu próprio testemunho sobre a questão racial.

Citando os versos do sambista Cartola, a canção Autonomia, Leci falou de sua importância, referindo-se à autonomia universitária, mas enfatizando que é preciso valorizá-la.

“Ai! se eu tivesse autonomia
Se eu pudesse gritaria
Não vou, não quero
Escravizaram assim um pobre coração
É necessário a nova abolição
Pra trazer de volta a minha liberdade”

“Cartola disse isso. E eu estou dizendo o seguinte: se eu tivesse autonomia, se eu pudesse eu gritaria que todas as pessoas têm direito ao acesso, à inclusão, independentemente da cor da pele, da religião, da opção sexual. Todas as pessoas, absolutamente todas as pessoas, têm direito à educação”, parafraseou a compositora e cantora.

Bastante emocionada, Leci, que é a segunda mulher negra a assumir um mandato de deputado, ao longo de toda a história da Alesp, lembrou do sofrimento daqueles que chegaram ao país a bordo dos navios negreiros: “Sabe o que acontece quando você favorece algumas pessoas, e desfavorece outras? Isso se chama discriminação. Eu acho que mérito, louvor, sabe o que é mérito? O seio das escravas negras que alimentaram a elite branca. Sabe o que é mérito? São os negros que foram para a Guerra do Paraguai e morreram. Sabe o que é mérito? São as mulheres e homens que foram torturados e dizimados e por isso temos a Comissão da Verdade aqui, hoje”.

Mais uma vez parafraseando Cartola, ela encerrou seu discurso: “Isso é mérito e autonomia. Se eu pudesse gritaria, não vou, não quero, eu não quero as cotas das cadeias, as cotas do analfabetismo, se eu pudesse eu gritaria: eu quero as cotas da educação para todas as pessoas”.

Antes de voltar à presidência, Leci lembrou sua trajetória, de momentos que foi chamada de “enxerida, que já teve na lista de subversiva, que já foi chamada de radical, encrenqueira, barraqueira” por já ter apontado para a importância das cotas. “Porque essa palavra que todo mundo disse aqui hoje, cotas, eu já falo há mais de 25 anos nos palcos”, declarou a deputada comunista.

Leci Brandão expressou sua alegria e satisfação em ver tantas pessoas reunidas, afirmando que já havia agradecido muito aos seus orixás, além de agradecer ao presidente Lula pela criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em 2003, tornando-se a primeira secretaria com status de ministério. “O presidente Lula criou essa secretaria por conta do movimento negro. O movimento negro já vem fazendo a luta das cotas”, frisou a parlamentar, dando um recado aos reitores presentes.

“Mas porque que eu estou feliz? Eu to feliz porque estou vendo aqui nessa plateia a diversidade: temos negros, brancos, morenos, loiros. Está todo mundo aqui como cidadãos brasileiros. Mas estou mais contente porque estou vendo cidadãos jovens, porque tem muita gente que gosta de falar mal de jovens, que jovem é maluco. Mas não é isso não. Pode pensar o que for, pode beber o que for, pode fumar o que for, mas [o jovem] pensa, pensa e está aqui”, destacou Leci Brandão, sendo bastante aplaudida.

No final da audiência, a presidenta da Mesa determinou, acatando sugestões dos movimentos presentes, que seja formada uma comissão para dialogar com todos os parlamentares com a finalidade de "fazer um projeto único, atualizado, com a participação de todos", tendo em vista que existe "um aglomerado de boas ideias”.

Presenças e ausência

A grande ausência sentida foi a do reitor da USP João Grandino Rodas, que enviou a professora pró-reitora Telma Zorn. Esta, por sua vez, tentou deixar o auditório sem que fosse percebida. O deputado Alencar Santana (PT), interrompeu a fala de uma estudante para chamar a atenção da pró-reitora.

"Professora, não sei se a senhora está indo embora ou não. Está? Bom, só queria fazer uma indagação que vossa excelência está numa audiência, aqui nesta casa, o reitor não veio, mas peço que respeite os estudantes que aqui estão". Sob um coro que gritava "fica, fica, fica", Telma Zorn retornou ao seu lugar.

Também não compareceu o reitor da Universidade de Campinas (Unicamp), Fernando Ferreira Costa, que mandou como representante o professor João Frederico.

Estiveram presentes e deram início aos debates o reitor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Júlio Cesar Durigan, e o coordenador da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), Carlos Vogt.

Fonte: Vermelho

Unesp confirma adoção do programa de cotas do governo de SP

Sob protestos, Unesp confirma adoção do programa de cotas do governo de SP

Reitor da universidade anunciou posição favorável à adoção ao Pimesp em audiência na Assembleia Legislativa de São Paulo


Manifestantes protestam contra a política de cotas em audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de São Paulo Foto: Alesp / Divulgação

Daniel Fernandes Direto de São Paulo
13 de Março de 2013 - 22h20

O reitor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Julio Cesar Durigan, confirmou nesta quarta-feira, em audiência marcada pela presidente da Comissão de Educação e Cultura da Assembleia Legislativa de São Paulo, deputada Leci Brandão (PCdoB), que a universidade é favorável à adoção do Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior (Pimesp), proposto pelo governo do Estado no final do ano passado.

"A Unesp tem interesse em fazer a inclusão. (..) Iremos fazer isso nos próximos três anos. Essa é uma decisão da nossa universidade", disse Durigan. Embora a proposta de destinar 50% das vagas para negros e alunos de escolas públicas, gradualmente a partir de 2014, tenha partido do governador Geraldo Alckmin em parceria com os reitores, cada instituição tem liberdade de decidir se vai ou não adotar as cotas.

Ao contrário da Unesp, os reitores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Campinas (Unicamp), João Grandino Rodas e Fernando Ferreira Costa, respectivamente, não compareceram à audiência, o que motivou protestos no auditório da Assembleia Legislativa. Eles haviam sido convidados pela comissão, e agora podem ser convocados a comparecer para discutir o tema com os deputados. Representando a USP, compareceu a pró-reitora de graduação, Telma Zorn, e pela Unicamp, o pró-reitor de extensão, João Frederico C. A. Meyer.

Em meio a fortes protestos de movimentos estudantis e sociais, principalmente de grupos de defesa dos direitos dos negros, os representantes das universidades apresentaram a situação da discussão do programa em suas instituições. Além da Unesp, que já manifestou intenção de aderir ao programa, a representante da USP afirmou que a universidade encaminhou às suas 42 unidades a proposta no dia 28 de janeiro, e o prazo para resposta é de 60 dias. O discurso de Telma Zorn terminou com fortes protestos dos presentes no auditório.

Também por conta dos protestos, o representante da Unicamp interrompeu sua fala e não divulgou maiores detalhes sobre a implementação do programa na universidade.

Críticas

Além dos representantes das universidades, estiveram no evento os deputados Alencar Santana, Adriano Diogo, Telma de Souza, Luiz Cláudio Marcolino e Marco Aurélio, todos do PT, Carlos Giannazi (Psol), Samuel Moreira e Roberto Engler, ambos do PSDB, Beto Trícoli (PV) e o coordenador da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), Carlos Vogt e representantes de movimentos estudantis e sociais.

Em suas falas, tanto os políticos como os representantes dos movimentos foram em sua maioria contrários à adoção do Pimesp. Segundo o presidente do Instituto Luiz Gama, o advogado Silvio Luiz de Almeida, o programa contraria as políticas de afirmação da população negra através de cotas aprovada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em junho de 2012. Para ele, a proposta não representa as demandas e o desejo da população e dos movimentos sociais.

"O Pimesp atropelou todas as discussões, tendo nascido da cabeça dos reitores, o que não significa que nasceu nas universidades", afirmou o advogado. "Universidade é comunidade acadêmica", completou.

Segundo Douglas Belquior, professor de História e Sociologia e membro da UneAfro, São Paulo deveria ter um programa de cotas semelhante ao do governo federal, que reserva 50% das vagas em universidades federais para alunos egressos do ensino público, com uma reserva dentro desse fatia proporcional ao número de negros, pardos e índios em cada estado do País.

De acordo com ele, o governo de São Paulo não acata as decisões do STF e do governo federal de incluir essa população no ensino superior público, e busca maneiras de driblar a obrigação, como com a proposta do Pimesp. "São Paulo não participa da vida política do País.É uma ilha de exclusão, uma ilha de racismo", disse.

Um dos integrantes do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP, Pedro Serrano, quetsionou a ausência dos reitores da Unicam e da universidade onde estuda, e acusou o projeto de ter teor político.

Segundo ele, o Pimesp representa uma ante-sala aos estudantes de escolas públicas e negros, que passariam a ter uma etapa adicional em seu ingresso à universidade, ao invés de ter garantida a entrada como na proposta do governo federal. Para Serrano, o modelo forma apenas mão de obra para o mercado, e não garante acesso desse público às instituições.

Saída causa desconforto

O líder do PT na Assembleia, o deputado Alencar Santana Braga, interrompeu a sessão e pediu a palavra para questionar a representante da USP que deixava a audiência. "O reitor já não veio, peço para que a senhora permaneça", afirmou o deputado a Telma Zorn, que foi vaiada por parte dos presentes e permaneceu no local. Posteriormente, ela deixou a mesa da comissão, e foi alvo de críticas de Alencar.

"Isso é uma falta de respeito com os movimentos aqui presentes", disse o petista. "Não adianta dizer que foi tomar um cafézinho", ironizou.

Cotas em São Paulo



Fonte: Terra